📍 Arari — Maranhão · Terra da Melancia e da Pororoca quinta-feira, 08 de outubro de 2026

José de Ribamar Brito – Zequinha Brito: um resgate biográfico e cultural

Poeta popular, cordelista, animador cultural e narrador da memória local, Zequinha Brito é um dos importantes nomes da cultura popular arariense na segunda metade do século XX e início do século XXI.

José de Ribamar Brito, conhecido em Arari e na região como Zequinha Brito, foi um dos importantes nomes da cultura popular arariense na segunda metade do século XX e início do século XXI. Poeta popular, cordelista, artista popular, animador cultural e narrador da memória arariense, construiu uma trajetória profundamente vinculada às personagens, aos acontecimentos e às manifestações culturais de sua terra.

Zequinha Brito nasceu em Arari, Maranhão, em 11 de agosto de 1952, no então povoado Trizidela. Filho de Azeídes Brito e João Brito, sendo o quinto de sete filhos do casal.

Sua trajetória profissional foi marcada por diferentes atividades. Trabalhou como apontador, auxiliar de topografia, encanador e pedreiro. Paralelamente ao trabalho, desenvolveu sua vocação artística, tornando-se uma das figuras representativas da cultura popular do município.

O poeta

Sua relação com a literatura começou a ganhar forma em 1974, ano marcado por uma grande enchente em Arari. Nesse contexto que produziu sua primeira narrativa em cordel, O Drama da Enchente, também registrada em algumas fontes como Dramas das Enchentes.

A experiência da enchente seria emblemática de sua produção posterior, bem como posteriormente também o seriam os acontecimentos da política local: Zequinha transformava acontecimentos vivenciados pela comunidade em narrativas populares, fazendo da literatura um instrumento de registro e preservação da memória local.

Sua inspiração para a narrativa popular vinha, entre outras referências, da música e da cultura popular. Em entrevista, mencionou especialmente o cantor e compositor Teixeirinha e a canção Coração de Luto como uma das referências que despertaram seu interesse pela construção de narrativas.

A partir daí, desenvolveu um estilo próprio, marcado pela linguagem acessível, pela rima, pelo humor, pela crítica social e política e, sobretudo, pela proximidade com a vida do povo.

Zequinha costumava identificar-se como “O Mensageiro de Arari”, expressão que traduzia sua identidade artística e sua relação com a cidade. Para ele, Arari era a cidade que amava, sua “cidade amiga” e a inspiração para seus “romances”.

Nesse contexto, é importante compreender o emprego que fazia da palavra “romance”. Não se trata necessariamente do romance literário em prosa, no sentido convencional do gênero, mas das narrativas que produzia em literatura de cordel (O próprio autor identificava suas narrativas como “romances” e chegou a apresentar Os Candidatos na Barragem – Eleições 2016 como seu 13º “romance).

O animador cultural

A atuação de Zequinha Brito como animador cultural não se limitou à produção literária. Ele teve participação significativa nas manifestações da cultura popular de Arari, especialmente nas quadrilhas juninas, nas quais se destacou como puxador, também conhecido como marcador de quadrilha.

Essa atuação começou ainda em 1974, quando, além de iniciar sua produção de cordel com O Drama da Enchente, produziu sua primeira quadrilha junina. Nesse papel, Zequinha contribuía para transformar a apresentação da quadrilha em uma experiência divertida, dinâmica e envolvente, características próprias da cultura junina popular.

Assim, a atuação de Zequinha Brito na cultura popular pode ser compreendida a partir de diferentes linguagens: a palavra escrita e rimada do cordel, a oralidade do contador de histórias e a expressão corporal e coletiva das quadrilhas juninas.

Narrador de memórias

A produção de Zequinha Brito constitui uma espécie de crônica popular de Arari. Seus versos registraram enchentes, acontecimentos políticos, personagens, episódios da vida comunitária e aspectos do imaginário local. Por isso, sua obra possui importância que ultrapassa o valor estritamente literário: ela representa também uma fonte de memória social e cultural do município.

Entre as obras atribuídas a Zequinha em levantamentos da literatura arariense encontram-se Dramas das Enchentes; Mensageiro da Vaidade, em dois volumes; a série Mensageiro de Arari e os Candidatos na Barragem (em cinco volumes); A Vida do Padre Clodomir na Cidade de Arari; e Sonhos de Ilusão Fazem Alguém Chorar.

Entre suas obras, merece destaque especial ** A Vida do Padre Clodomir na Cidade de Arari **. A narrativa é dedicada à trajetória do padre Clodomir Brandt e Silva, personagem de grande importância para a história religiosa, educacional e cultural de Arari.

Produzida após a morte do sacerdote, ocorrida em 1998, a obra demonstra novamente a maneira como Zequinha utilizava o cordel para registrar personagens cuja trajetória fazia parte da memória coletiva arariense.

Segundo o depoimento do próprio poeta, A Vida do Padre Clodomir na Cidade de Arari foi sua obra de maior circulação, ultrapassando 2 mil exemplares vendidos, sendo considerada por ele uma de suas produções mais importantes.

O “Mensageiro de Arari”

A denominação “Mensageiro de Arari” tornou-se particularmente apropriada para definir sua produção. Zequinha não escrevia sobre Arari à distância. Ele escrevia a partir da experiência da cidade, de seus acontecimentos e de suas pessoas.

Essa característica explica a permanência de seu nome na memória cultural do município. Seus cordéis, suas quadrilhas e sua atuação como marcador fizeram dele um participante ativo da vida cultural arariense.

Sua produção artística nasceu, portanto, de uma relação direta com a comunidade. Ele escrevia para o povo e também participava das manifestações culturais vivenciadas pelo povo. Essa combinação entre literatura e participação cultural é fundamental para compreender sua trajetória.

Reconhecimento da Academia Arariense

O reconhecimento institucional de sua importância alcançou um momento particularmente significativo em 1º de dezembro de 2018, quando a Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências – ALAC, durante a Bienal Arariense de Letras, Artes e Ciências, concedeu a José de Ribamar Brito uma Moção de Aplauso.

Na homenagem, a Academia o qualificou como: “cordelista, artista popular e animador cultural” e justificou a condecoração pelo reconhecimento da importância do conjunto de sua obra para a cultura do município de Arari.

A homenagem ganha ainda maior significado quando observamos a amplitude de sua atuação: o título de animador cultural não se referia apenas à sua produção literária, mas a uma trajetória que envolvia também a participação ativa nas manifestações populares, entre elas as quadrilhas juninas, nas quais se destacou como puxador ou marcador.

Esse reconhecimento ocorreu poucas semanas antes de sua morte e demonstra que, ainda em vida, sua produção e sua atuação cultural já haviam sido incorporadas ao patrimônio cultural reconhecido institucionalmente pela comunidade arariense.

Os últimos dias

José de Ribamar Brito passou seus últimos dias internado devido a complicações em seu estado de saúde e faleceu no início da noite de 23 de dezembro de 2018, aos 66 anos de idade, no Hospital Municipal Jorge Oliveira, em Arari.

Sua morte ocorreu apenas 22 dias depois da homenagem recebida da ALAC, estabelecendo uma circunstância particularmente significativa: Zequinha Brito foi reconhecido oficialmente pela instituição que representa parte importante da produção intelectual e cultural arariense pouco antes de partir.

Memória depois da morte

A morte de Zequinha não encerrou sua presença na cultura de Arari. Pelo contrário, iniciou um processo de memorialização de sua obra e de sua figura.

Em 2019, a Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências programou uma homenagem póstuma ao cordelista, demonstrando a continuidade do reconhecimento institucional de sua importância.

Posteriormente, conforme a documentação institucional localizada, a ALAC passou a ter Zequinha Brito como Patrono da Cadeira nº 09 dos Sócios-Correspondentes, numa iniciativa destinada à preservação e perpetuação de sua memória.

Legado

O legado de José de Ribamar Brito está na capacidade de ter transformado acontecimentos cotidianos em memória cultural. Sua contribuição não se restringiu a uma única linguagem artística. Ele atuou:

  • na literatura, como poeta popular e cordelista;
  • na cultura junina, como puxador ou marcador de quadrilhas;
  • na animação cultural, participando ativamente das manifestações populares;
  • na preservação da memória, ao transformar acontecimentos e personagens de Arari em narrativas;
  • na cultura popular, aproximando arte, oralidade, comunidade e cotidiano.

Zequinha Brito foi, portanto, muito mais que um autor de cordéis. Foi um agente da cultura popular arariense.

Sua trajetória revela a força de uma produção cultural construída fora dos grandes centros literários e profundamente vinculada à experiência comunitária. Sem abandonar a simplicidade da linguagem popular, transformou acontecimentos, pessoas e costumes de Arari em matéria de poesia, narrativa e celebração.

Seus cordéis registraram a cidade em versos. Suas quadrilhas levaram a cidade à festa. E sua atuação como animador cultural ajudou a aproximar a arte das pessoas. Por isso, sua obra e sua trajetória podem ser compreendidas como do patrimônio cultural imaterial de Arari.

José de Ribamar Brito, o Zequinha Brito, foi poeta popular, cordelista, artista popular, animador cultural e narrador da memória arariense — uma voz que contou Arari em versos e ajudou a celebrar Arari em suas manifestações populares.

Síntese cronológica

Data/períodoAcontecimento
11/08/1952Nasce José de Ribamar Brito, em Arari–MA
1974Inicia sua produção de narrativas em cordel, tendo como marco O Drama da Enchente
1974Produz sua primeira quadrilha junina e inicia sua atuação como puxador/marcador
Décadas seguintesAtua na cultura popular, literatura de cordel e quadrilhas juninas
Final dos anos 1990Publica A Vida do Padre Clodomir na Cidade de Arari
2016Publica Os Candidatos na Barragem – Eleições 2016, apresentado pelo autor como seu 13º “romance”
01/12/2018Recebe Moção de Aplauso da ALAC na Bienal Arariense
23/12/2018Falece, aos 66 anos, no Hospital Municipal Jorge Oliveira
2019Recebe homenagem póstuma da ALAC
PosteriormentePassa a ser Patrono da Cadeira nº 09 dos Sócios-Correspondentes da ALAC

REFERÊNCIAS

ACADEMIA ARARIENSE DE LETRAS, ARTES E CIÊNCIAS. Moção de Aplauso a José de Ribamar Brito (Zequinha Brito). Arquivo Institucional da ALAC, 2018.
ACADEMIA ARARIENSE DE LETRAS, ARTES E CIÊNCIAS. Lista de Cadeiras e Sócios-Correspondentes da ALAC Arquivo Institucional da ALAC, 2019.
BEZERRA, Adenildo. Literatura arariense: nosso patrimônio intelectual. ViverArari, jan. 2017. Disponível: LITERATURA ARARIENSE: nosso patrimônio intelectual Acesso: 07 ago. 2026.
BEZERRA, Adenildo. O poeta cordelista Zequinha Brito. ViverArari, dez., 2018. Disponível em: https://www.viverarari.org/post/2018/12/03/o-poeta-cordelista-zequinha-brito Acesso: 08 ago. 2026.
BRITO, Zequinha. A vida do Padre Clodomir na cidade de Arari. Ed. do autor: Arari, 1999.
BRITO, Zequinha. Os candidatos na Barragem: eleições 2016. Ed. do autor: Arari, 2016.
DINIZ, Júlio. Academia Arariense divulga programação de reabertura dos trabalhos acadêmicos. Blog Júlio Diniz, 22 fev., 2019. Disponível: https://juliodiniz.com.br/academia-arariense-divulga-programacao-de-reabertura-dos-trabalhos-academicos/ Acesso: 07 ago. 2026.

COMO CITAR ESTE ARTIGO:
FERNANDES. José Cleilson. Súmula biográfica de Antonio Djalma Carvalho: político, oficial de Justiça e comerciante. Portal Arari, 2026. Disponível em: <https://arari.org.br/sumula-biografica-francisco-de-assis-bogea-lico/>. Acesso em: 00/00/0000. [copie, cole em seu texto e adicione a data atual]

Cleilson Fernandes

Jornalista, SRT/MTE 1787/MA, pesquisador, consultor e orientador acadêmico. Membro-fundador da Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências (ALAC) e do Instituto Histórico e Geográfico de Arari (IHGA). Mestre em Letras (UFMA), tem especializações nas áreas de Linguagem, Comunicação, Neurociências e Filosofia, com licenciatura plena em Filosofia (FAEME), Letras (UEMA) e bacharelado incompleto em Psicologia (CEUMA). Atua nas áreas de Imprensa Oficial e Assessoria de Comunicação. E-mail: cleilsonfernandes@arari.org.br